16.4.18

Sereias

atiro palavras
ao mar
feito garrafas
e há quem use
chamar
de poesia
essa simples
maresia
mania
de tentar
pescar
sentido
em estar
afogado
no raso
lugar que fica
entre o ar
e a sereia.

27.3.18

22.3.18

Seu lúcido

faz tempo
que não tenho
um soluço
isso é estranho
me sinto
confuso
será que estou vivo?
será que sou lúcido?
faz tempo
que não tenho
um soluço
temo não ser
mais humano
temo não ser
mais americano
temo
tremo
me esgano
faz tempo
que não tenho
um soluço
morri
e não
percebi
que sou russo.

7.3.18

Dilema

entre um mapa astral
e outro
disfarço
e faço
um poema
não tema
cada um
desfaz da morte
que ali
acena
como se fosse
nosso
esse roteiro
cheio de estrelas
de cinema.


14.2.18

Cinzas

de um cigarro
de um amor
de um sem cor
restos
de uma espera
de uma paixão
desilusão
vamos
dobrar a esquina
da rua torta
que corta
essa avenida coração.

27.1.18

Problema

realmente
não sei
o que
me aconteceu
talvez seja
saudades
do tempo
em que eu
não era
problema
meu.

26.1.18

A tristeza errada

certas tristezas
não levam
a nada:
água parada
paixão perdida
na estrada
mas há outras
que atravessam
minha garganta
feito facada:
aquela criança
magra
caixa de balas:
olhar perdido
olhos de vidro
na calçada.

21.1.18

Esquisito

não sei mais
em qual mundo
existo
se é naquele
que eu insisto
ou no outro
em que eu
desisto.

15.1.18

Fingimento

coisa mais tosca
é essa de a gente
se viver sendo inútil
acordar sorumbático
dormir pragmático
sentir todas as doenças
num só corpo
inútil
fútil
se era para ir era melhor nem ter vindo
o melhor do sonho
é se fingir
dormindo.

8.1.18

Verão

a chuva
é sentimento
que escorre 
por fora
do vidro
embaçado
desse
automóvel
modelo coração
quanto mais chove
mais acelero
rumo
ao
cruzamento
de uma nova
avenida
com a imaginação.

5.1.18

Cadeirada

Todo mundo fala do jeito que vemos as coisas mas pouco se comenta de como as coisas nos vêem. Uma cadeira, por exemplo...
cá estou eu
aqui parada
quatro pernas
e não posso andar
sirvo para tudo
sirvo para nada
tenho mesmo
que te esperar
aqui sentada?


31.12.17

Pra quê?

o teclado
me pergunta
por que
ainda faço
poema?
respondo
que faço
como quem
vai
ao cinema
como
quem resolve
um problema
como
quem é
do sistema
como
quem caga
come
respira
transpira
suspira
e faz cena.

30.12.17

Pisando em anos novos

ai que saudade de nós
não do nós que nós fomos
mas do nós
que naquela tarde de sexo sem reflexo
nós sonhamos ser
ai que saudade
de nós
e dos nós que desfizemos
só para ficarmos a sós
ai que pena
de nós
e dos nós que fizemos
só para ficarmos
eternamente
sós.

27.12.17

Proposital

volto para buscar
um propósito
supositório de vida
na suposição
tão desnutrida
de que haja
chegada
meio
e até
um ponto
de partida.

21.12.17

Solstício



aqui embaixo
faz calor
lá em cima
faz frio
os povo
de lá
bate queixo
os povo
daqui
abre o bico
não sei
se pra lá
eu vou
não sei
se aqui
eu fico
só sei
que os pobre
chama de horror
e os rico
chama
solstiço.

5.12.17

Correria

viver
dá um medo
danado
é um tal
de estar vivo
cercado
de perigos
por todos
os lados
viver
não é
um lago
parado
é um rio que corre apressado pra desembocar
inacabado.


28.11.17

Cosmogonia


que o sol
seja a gema
de um ovo
estrelado
entre estrelas
pronto a explodir
sobre o arroz branco
conhecido como
eternidade
gosto de pensar
que somos
somente
o curto
intervalo
de sonhos
entre as refeições
mundanas
dos deuses.