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Mostrando postagens de 2010

O fim do mundo

quando o meu mundo acabar
será o fim do meu sonho
da baba na fronha
dos destinos imperfeitos

quando o meu mundo acabar
será o fim do meu direito
do medo das perdas
dos ganhos imerecidos

quando o meu mundo acabar
será com uma profecia
dos maias que desmaiam
dos nostradamus invertidos

quando o meu mundo acabar
será tarde demais pra mim
dizer sim aos que disse não
discordar mesmo sem razão

quando o meu mundo acabar
o mundo de todos os outros...

acabará também

afinal só existirá mundo
quando eu acordar
e todos os anjos disserem

amém.

Uma história natalina

Essa história me foi narrada pelo meu pai que, aos 81 anos, é cada vez mais ele mesmo. Livre das amarras da maturidade e da produtividade, dos exageros da juventude e fantasias da infância, vive seus hábitos de velho com uma serenidade sensível.
São os hábitos que o levam toda manhã para um lanche na padaria. É a sensibilidade que o faz desprezar a avalanche de coisas concretas enquanto presta atenção às irrelevâncias do cotidiano. Coisas e pessoas irrelevantes como o pobre casal de negros tomando café a seu lado. Média e pão com manteiga simples para gente com roupas surradas mas muito limpas. Havia também um menino pequeno, que o pai tratava com carinho e atenção.
- Tá quente o café com leite pai... - Deixa o papai assoprar. Vamos, tome com cuidado.
O café era quente, mas ainda assim esfriou. O pão era pouco, mas ainda assim sobrou. A mãe pediu à garconete que embrulhasse o restante para viagem. Meu pai, sem saber muito bem porque a cena o comovia, pediu à moça que desse uma sacolinha p…

Sabedorias

sabe mal 
e porcamente
quem são os outros
não tem
a menor chance
de um conhece-te a ti mesmo
é leso
é lesmo
e triste
como todos sabemos ser
mas vive suavemente
esse passatempo
sei lá
de viver.

Metralha

fazer poesia como quem metralha um muro cacos de concreto voam perfuram olhos abrem cabeças as balas comem loucas seu passado seu futuro.

Formigação

a bunda
da tanajura
é tão gostosa
que quando vejo


seu verso


fico prosa.

Lá de cima

tenho o sangue do norte não tenho medo da morte só temo perder o fio do corte da minha palavra-facão
sou das falanges do norte nasci de uma forte mulher que era mais raça que razão
eu sou do norte anote aí minha alma é nua olha aqui e o meu sangue cor de açaí escorre pelo mapa sobre ti.

Bolinha do céu

uma bolinha
caiu do céu
certeira
divina

na cabeça
de um pastel.

Autocrítica

mas eu só falo besteira pensamentos subalternos escondidos debaixo da cama
mas eu não tenho foco lanterna sem pilha e lente de aumento que só amplia o drama
mas eu não vou longe caixinha de sonhos perdida quando o despertador reclama.

O Pink e o Cérebro, o Cérebro e o Pink...

minha memória me trai
e a mente se contrai
em trejeitos dementes
naturalmente
esqueço minhas senhas
poemas
e artimanhas


sou um dilema
ambulante
ante
o fim do cérebro.

Filhos e festas

deixar os filhos nas festas
é como morrer um pouco festejar o sentimento da festa que não fomos na alegria daqueles que não somos
acelero o carro em direção ao passado sonho em ser atropelado pelo olhar imperdoável de cada nova geração.

Audição

ouça o ruído da corrente elétrica indo do interruptor até o teto
o gato está certo
mantenha a mente flexível e o corpo ereto.

O céu late mais alto

Hoje nossa cachorrinha querida, Luna, nos deixou. Após quase duas semanas de luta e resistência corajosa, ela resolveu se juntar aos pais, Brutus e Kelly, no céu de nossos cachorros amados. Lá certamente irá acordar, com seu latido alto e valente, meus cães queridos do passado - Don e Bug.

Apesar da grande tristeza, fica o alívio pelo fim do seu sofrimento. Melhor guardar na memória seu som, seu cheiro, seu olhar meigo de lua cheia de emoções transparentes. Nossa Luna sempre foi como a lua, com suas fases de alegria e melancolia, cheia de atos crescentes antes do epílogo minguante.

Hoje ela é lua nova. O vazio em nosso quintal só não é maior que o de nossos corações. Brinquedos esperam para ser guardados. A ração será doada para um amigo distante.

Mas a vida segue seu curso e seu discurso. Que a morte não se ache mais uma vez invencível porque levou nossa Luna. Mal sabe ela que a Luna brilhará sempre em nosso céu de lembranças. E a cada latido alto soará o canto das nossas esperança…

Sambinha

na batida do teclado rolam compassos
da mente aos dedos
aqui não há medos só mesmo segredos que insistem escondidos entre a boca e os ouvidos
sejam precavidos
saibam o que se diz não acreditem nos olhos sigam sempre o nariz.

Embalada

uma bala é uma bala e não me abala o paladar o abalo que a bala dá é quando enrolada está

e melada faz a molecada exclamar: que meleca que a bala tá! e as unhas cheias de doce riscam na língua se limpam nos dentes juntos açúcar e sujeira fazem da vida doce de brincadeira.







Outros orifícios

transforme problemas em poemas
não vai adiantar nada
nem mudar sua vida
mas dá uma sensação
de pia desentupida

transmita sinais de fumaça
para uma tribo vizinha
não é a melhor comunicação
mas dá uma poluição
e parece que tudo disfarça

faça um barulho esquisito
pode ser com a boca
com o nariz
ou outro orifício
se quiser imite o mosquito

o importante é sugar
do tempo um segundo
do mundo um instante
do futuro um doravante

e vamos seguindo adiante...

Condensação

todas as coisas
deveriam ser escritas
no vidro frio
do box

só assim
seriam coisas
esquecidas
na umidade da vida

apagadas
no desequilíbrio
térmico
em que tudo

termina.

Copa na mídia

o leão boceja
sai uma propaganda
de cerveja

a corneta toca
close no traseiro
da minhoca

o sol nasce
as zebras fazem linha
de passe

o negro sorridente
vê um time amarelo lá
do oriente

até o dunga tá sereno
lamentavelmente lá vem outra copa
com galvão bueno.

Mãe tenho à distância

lá no céu
um sorriso de papel
numa lembrança nublada
perdi a definição de suas feições
mas suas afeições permanecem no universo

e hoje
confesso
quero te rever mãe
na próxima dobra espacial
no próximo sonho sideral

um dia
quem sabe
você vai ser
de novo

meu presente de natal.

Temporal

no
topo
coberto
barracos
de sonhos
em fantasias
desmoronam
num temporal
de irreal agonia
nosso mundo cai
na natural tragédia
que todo dia se previa

morro
não é um lugar
é uma sina
onde a história
e a natureza
se combinam.

Pandeiro

achei um samba
ali na esquina
inventei uma sina
e já virei bamba

quis até entrar
numa roda
de tradição
nascido quadrado
me fiz de redondo

pensei que com ferrão
logo seria marimbondo

tomei foi um tapa
bem no meio
do pandeiro

pra aprender que é na lata
que se faz um sambeiro.

Bermuda

meia calça
meio curta
quatro bolsos
uma luta

camiseta
sem estampa
dores no peito
a cada lembrança

meia vida
meio longa
um boné
na cabeça

zonza.

Marginal

atravessou a rua
no maior desleixo
andava solto
tipo
deixo não deixo

a correnteza
em volta
não era com ele
a turba e a pressa
passageiras
enchiam a avenida de bobagens
ligeiras

sem eira nem borda
seguiu seu desfecho
sua força
sua calma

são de cair o queixo.

Carnaval, bunda e alegria

a bunda se divide em duas partes:
a de dentro e a de fora

e com muita arte
parte
sem delongas
atrás do bloco
que não tem (e só tem) fantasia
para o povo cantar

a bunda se diverte em duas artes:

e o fio dental
vai fazendo a alegria
euforia na lata

para o povo catar.

Tergiverso

o olho da água é fundo
o sobrenome da jane é fonda
a dor do zagueiro que bate é onda

então se tudo no mundo é torto

eu tergiverso

o voo da águia é reto
o risco do raio é rápido
o ritmo da rapsódia é húngaro

então se tudo nessa vida é vítima

eu tergiverso

até que a neve não seja tão fria
o verão não se faça tão caldo
e o gol mil não pinte de pênalti

então o universo será sem esquema

e eu traveoverso.

Onde é o Haiti?

caetano uma vez disse
o haiti
é aqui

e desde então nunca mais eu soube
onde de fato
era o haiti

no fim do mundo que come?
ou no interior que temos
em si?

aí vem um terremoto muito
muito isso
muito aquilo
e faz o impossível
ficar pior

onde é pior do aqui
onde é que se finaliza o fim

onde é pior?

fora de nós ou dentro de cada mim?

Baratas

as palavras
têm vida própria

por aqui

me escapam
feitas
baratas tontas

voam

sobem
pelas paredes
vivas

de calor
sem memória

com certeza

fogem de mim
como de um frasco
de rodox.