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Mostrando postagens de Fevereiro, 2014

O velho e a praça

o tempo passa
mas o velho não tem pressa
entre o velho e a praça
não tem nada
que o impeça
de fumar um cigarro
atrás do outro
já que tempo
é um osso
que ele tragou

até o fim.

* Foto de Pedro Curi

Assalto à padaria

passei a sexta
no sábado
só no compasso
sem problema
amanhã
eu desfaço
e passo
adiante
o cansaço
pego um foguete
vou pro espaço
como se vivesse
ainda
na década de sessenta

menino

sou um eterno
astronauta
só me falta
um destino
porque o sonho
eu já tenho
desde que assaltei
a padaria que

muito estranho

vendia sonhos
junto com o pão nosso
de cada dia.

Poema médio

nascer na classe média
um privilégio
pensar como classe média
um sacrilégio
filosofar entre a classe média
um sortilégio

mas no fundo tudo é um problema de colégio.

Cegueira noturna

queria estar em outro lugar em outro tempo em outra rua só para encontrar mais do mesmo e assim ter certeza que existir é andar
a esmo.

Cinzas e borras

faço café
para receber amigos
para me despedir de outros
ou só por fazer
fumaça

quando eu morrer
façam café
acendam um cigarro
para eu me afundar
na borra
para eu me perder
na fumaça

quando eu morrer
façam o que quiserem
façam o que for
mas façam.

Para Jackson

acabo de saber
que perdi
um amigo

engraçado
difícil
complicado
mas amigo
daqueles
que não fica menos
por ter sido
perdido

adeus amigo
um dia nos reencontraremos
na galáxia
divertida
fácil
simples
dos amigos.

Receita do fim

pega-se alguém
que supostamente
cometeu
comete
cometerá
um crime
espanca-se
desnuda-se
amarra-se
a um poste
ensaguentado
aplaude-se
curte-se
vibra-se

como se estivesse acontecendo algo de novo

isso é mais velho que tudo
isso é daquelas receitas
que me deixam mudo
com medo
que nada mude
e que
no fim
sejamos mesmo
apenas
o fim de tudo.