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Mostrando postagens de Novembro, 2013

Tecido

escrever
me eleva
a nada
não faz
sentido
se tô alegre
se tô fodido
palavras
são letras
fugindo
do perigo
fodendo
com o próprio
umbigo

escrever

é fingir que a vida faz sentido

é tingir
de preto
o tecido branco

do infinito.

Original

adão comeu eva
achando que era maçã
viciou
na salada de frutas
virou gay
e se escondeu
no armário
da irmã

a cobra
toda enrolada
ouviu uma flauta
achou que era

enquanto eva
abandonada
cultivava minhocas
achando que
era
uma cobra anã

Deus
vendo o distúrbio
sentiu preguiça
e disse

anham

quer saber?

tô cansado

cuido disso amanhã.

[estamos esperando até hoje]

Grandicidades

se você anda
nas grandes cidades
tem que ter estômago
para as diversidades
maldades
bondades
magrezas
gordezas
excentricidades

se você anda
nas grandes cidades
tem que ter cabeça
para as eletricidades
choques
cheques
achaques
massacres
publicidades

se você vive
nas grandes cidades

pegue as avenidas mais largas e longas que puder encontrar pela frente

porque
de repente
você sai
da cidade
e nem vê a gente.

Escravidão moderna

tem relógio
de ponto
tem smartphone
e você tonto
tem hora extra
na sexta
tem meta
inalcançável
e você
cansado
faz cara
de incansável
tem muito
futuro
do pretérito
e você
preterido
preferia
ter ido
à praia
do que
ter sido

promovido

a escravo remunerado.

Ventaria

o ventilador
espalha o calor
como se fosse
democracia
reinventando
o vento
que já foi brisa
um dia

o ventilador
só sabe dizer não
em sua
oscilação
cheia de monotonia
venta palavras
que antes foram
ventania.

ET

alienígena
de mim mesmo
peguei meu disco
na vitrola universal
e viajei pra outra era
onde o azul será vermelho
e as estrelas brilharão no chão
tornando muito mais fácil o encontro

dos viajantes.

O pardal

o pardal
canta mal
não é bonito
nem tem chance
no the voice

o pardal
veio de portugal
mas não fala pois
nem tem comércio
na esquina

o pardal
é tão normal
tão natural
nem se nota
no fio

o pardal
não é o tal
é todo sem sal
mas tem as asas
que eu queria

ao menos por um dia...

Querência

queria

a mulher do próximo
enquanto o próximo
estava próximo
porque longe
não tinha o tóxico
da emoção

queria

a mulher do outro
enquanto o outro
era outro
porque se outro
fosse ele
não tinha graça ter

queria

aquilo que não devia
e enquanto podia
sentia
o prazer de fazer
com a outra
o que não podia ser.

Serraria

eu na agonia
sofria todo dia
morria toda noite
mas por falta de sorte
acordava meio firme e forte
nas mãos um serrote todo afiado
pronto para enfrentar sua linda cara 

de pau [na mão].

Amaral, o normal

amaral era um homem
normal
daqueles
em que as mulheres não acham graça
que passam pela vida
e não que a vida passa
trabalhava
não era romântico
nem fazia graça
não batia
não apanhava
nem tomava cachaça

amaral
vivia por ela
pelos filhos
e pela continuidade
da raça
amaral
não era sensual
nem era
uma desgraça
era daqueles homens
que a história gasta

as mulheres esquecem

um homem comum
numa cova rasa.