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Postagens

Mostrando postagens de 2017

Pra quê?

o teclado
me pergunta
por que
ainda faço poema? respondo
que faço
como quem
vai ao cinema como
quem resolve um problema como
quem é do sistema como
quem caga
come
respira
transpira
suspira e faz cena.

Pisando em anos novos

ai que saudade de nós
não do nós que nós fomos
mas do nós
que naquela tarde de sexo sem reflexo
nós sonhamos ser ai que saudade de nós
e dos nós que desfizemos
só para ficarmos a sós ai que pena de nós
e dos nós que fizemos
só para ficarmos eternamente sós.

Solstício

aqui embaixo
faz calor
lá em cima
faz frio os povo
de lá
bate queixo
os povo
daqui
abre o bico não sei
se pra lá
eu vou
não sei
se aqui
eu fico só sei
que os pobre
chama de horror
e os rico
chama solstiço.

Correria

viver
dá um medo
danado
é um tal
de estar vivo
cercado
de perigos
por todos
os lados viver
não é
um lago parado é um rio que corre apressado pra desembocar inacabado.

Cosmogonia

que o sol
seja a gema
de um ovo
estrelado
entre estrelas
pronto a explodir
sobre o arroz branco
conhecido como eternidade gosto de pensar
que somos
somente
o curto
intervalo
de sonhos
entre as refeições
mundanas dos deuses.

Eu, você e Netuno

sei que vou morrer
um dia
como minha mãe sei que vou morrer
uma noite
como meu pai o certo
é todo mundo
vai até porque
mesmo quem viveu
demais quem viveu
até dizer
que era muito não viveu pra ver
um simples
retorno de Netuno.

Vai pro Rio

Morar em Niterói é estar sempre indo pro Rio. É um estar na ponte a ver navios. É um poder partir, num salto ou num desvario.


Um dia

e pensar
que um dia
fui criança
rimei
bagunça
com lambança
comi
até
encher a pança e pensar que um dia a gente
avança
cresce
e emburrece
até onde
a vista nem alcança.

Chove

certas chuvas
caem bem
outras 
caem mal
mas a culpa
nem é das nuvens
é da nossa falta de tempestades.

Semente

só quero a graça
de morrer
rápido
assim de repente partir
sem dar trabalho
alguma saudade
deixar e nunca restar
para somente.

Apocalipse não?

lamentamos informar
que o mundo
não vai acabar
e a vida
vai continuar
a não fazer
sentido aliás
sentimos lembrar
que só
para constar
os pobres
pretos
e fodidos de sempre hoje
e eternamente terão morrido.

Arruaça

na minha rua
tem um subúrbio
de sentimentos
pobre fala alto
pra caralho
e o filho
do vizinho
é mau
elemento no subúrbio
da minha rua
cada alegria
tem seu custo
em cerveja
cigarro e sofrimento.

Doce

quem dera
voltasse
o drops
dulcora
e você
também
multicor
não tivesse ido embora.

sempre só
como o avô
de minha avó
como uma corda
sem nó
como uma dor
sem dó só sempre só
e você sorrindo
imaginária
como a amante
que nunca tive
e sem nunca ser
achou de moer meu coração até virar pó.

Entreposto

algumas palavras
saem assim
a contragosto
carro parado
no posto
para calibrar
peido escondido
no encosto
que é pra ninguém
escutar
sirenes encobrindo
o desgosto
que é
a emergência
de alguém
pra atrapalhar não vem que não tem minha poesia não é exposição
de belezuras
carne crua
tortura
tontura
um dia vamos estar tão mortos
que nem
precisaremos
mais nos matar.

Amigo

aquele que olha para você
antes de olhar
o próprio
umbigo aquele que chora
por você
como se chorasse
o próprio
destino aquele que chega
até você
como se chegasse
ao próprio
filho amigo não sei o que seria
essa viagem
sem olhar
para os lados
e ver
todos vocês
aqui comigo.

Bom menino

a mosca voa
ressoa
nos ouvidos
duvida
do meu poder
de exterminar
inimigos magnânimo
não a mato
nem cedo
aos instintos
assassinos
sou um bom
menino mentira o fato
é que meu karma
aflito
não suporta
nem o peso
de mais um
assassinato pequenino.

Americanas

que bacana
antes de voltar
pra casa
passo nas lojas
americanas
tem cuecas
tem panelas
tem televisor
microcomputador
tem biscoito
tem sabão em pó
tem barbeador
e até
sandálias havaianas só não tem aquele amor
esse eu comprei
na mão da cigana.

58

e saturno
safado
deu duas
voltas no meu biscoito.

Mercúrios

descubro
que mercúrio
entrou em touro
então faço um poema
que vale ouro duro
teso
um tesouro escondo
que mercúrio
entrou em touro
não conto pra você
que nossa amizade frouxa
leve
é namoro.

Escravo

eu sou pura
ideologia
toda hora
todo dia
comigo
não tem
anestesia
enquanto
houver
dor
desigualdade
agonia
vai ter
luta
palavra
pancadaria
no rabo
dessa
gente
que não quer nossa alforria.

10%

é cada poema
que nos aparece um
não convence
outro
não apetece quer saber? hoje não vou
de poesia
garçom!
sim patrão? cancela
o poema
e me traz uma prece.

Movimentos

quanto maior
a repressão
maior será a revolução se todo repressor
soubesse a dor
que a gente
sente
seria
revolucionário daqui pra frente.

Luta de classes

eu tenho
todas as classes
do mundo
você
nenhuma classe
num segundo

eu luto
você lucra

e eles?

bem
eles
vão levando
esse desgosto

profundo.


Mercúrio retrógrado

pare
e pense
você não me convence nem vence
perde
impaciente recue e não olhe pra frente
pra gente
praticamente tire toda a roupa do corpo
do armário
da mente de agora em diante vamos fazer
vamos comer
vamos morrer diferentes.

Noturnos

a noite chega
com seus trejeitos
escuros
sombras mal faladas
gatos em cima
dos muros sufocos
sussurros não tenho insônia
nem me iludo
tenho é a cabeça cheia de entulhos.

Chovente

a chuva
ando chovendo
de repente
súbita
indiferente
aos desejos
e à secura da gente.

Puta poema

fico muito puto
quando penso
um poema
e a preguiça
o desleixo
a falta
de sistema
acha que não vale a pena não anota
não decora
não acena ao contrário
fecha a barraca
mete o galho
dentro
recolhe a antena fico de luto
quando morre
um poema
assim sem nascer
sem crescer
sem ser solução
nem problema pobres poemas mortos
antes de encarnar
e terem corpos
atores tortos
sem papel
sem tema
são meus abortos
meus esgotos merdas
que eu não fiz
nem pra provar
que minha alma era pequena.

Minha mãe

minha mãe
tinha um jeito
esquisito
de dizer
que me amava flutuava entre o amor
irrestrito
e o terror
aflito fui filho
querido
fui monstro
bandido que bom
que ficou
especialmente
aquilo
ao que não dei ouvido.

Sanduíche

e lá vem chegando
o aniversário
do meu filho
que por um acaso
é na véspera
do de minha
mãe que já morreu fico entre a saudade
de duas infâncias
e a dúvida
sorrateira
se a vida
é mesmo
rápida ou o lento sou eu.

Canários

somos todos
canários
cantando
solitários
nas gaiolas o que varia? as grades e suas bitolas.

Salinas

entrementes
nos déssemos bem
com o tempo
e as mudanças
do firmamento
entrecorpos
nos demos mal foi natural
foi normal
foi elemental onde falta
açúcar sobra só o sal.

Zeppelin

quando ouvimos
o passado ele volta mutilado
multi
facetado
misturado
espalhando futuros não
realizados.

Parafuso

só de te ver
passar
sem te conhecer
eu me
parafuso
sou velho
sou confuso
sou galileu sou confúcio mas também
sou romeu
sou peri
sou lancelote sou quixote e se o corpo
anda cansado
o coração
bate de novo
distraído
que é
esquecido do muito uso.