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Postagens

Mostrando postagens de Novembro, 2015

amor

amor essa coisa tão vulgar
tão popular
tão fácil de achar
de perder
e não encontrar
mais amor essa coisa pra vender
pra alugar
e até
parcelar
em suaves prestações
normais amor te encontro em fotos
poemas
músicas
e cinemas
nos vários sistemas
naturais amor por favor
não vá embora
pois não veja
a hora
de te resgatar
respirar seu boca a boca pra depois te afogar.

Tragédia

a dor
desce pelo peito
embrulha o estômago
não tem jeito
o medo
que reveste a alegria
deixa de ser
só receio
a perda
nossa inevitável sina
assassina sonhos
e desejos
o fim
não é o início
de nada
é só o fim mesmo.

Hitchcock

fim de tarde
em niterói
pássaros cantam
revoam
prenunciam
a chuva
que vem sem demora
choveu e parou
agora
enquanto eles
[os pássaros]
continuam
sabendo
de tudo eu humano
não sei nem
minha hora.

Justiça poética

sonhei um mundo

diferente

girafa tinha pescoço curto
caranguejo andava pra frente
pipoca pulava pra dentro da panela
cabelo penteava o pente
justo era o pecador
ninguém passava corrente

sonhei um mudo
sonhei um surdo

e acordei achando que eu era gente.


O velho e o cão

o cão e o velho
o velho partiu
e o cão segue
abanando o rabo
porque o amor
é um apêndice
preso
a um corpo
que balança
na dança
tortuosa
que atende
por vida o cão late
o carteiro bate
e não há poste
que exista
sem a mijada
certeira
do destino.

Ei mundo

olha mundo
presta atenção
não estou disposto
enjoado desse desgosto
de sangue e morte na boca
desse mau gosto pela dor e desespero olha mundo
minha indústria
é bela e não bélica
é de fala mas não é fálica
não aceito essa sua torta fria
que serve em fatias a tragédia todo dia olha mundo
olha pra dentro
olha pro fundo
olha pra trás
olha pra frente
olha enquanto é tempo e olha para fora antes que a gente vá embora.

Vendido

faço poemas
sob encomenda
para trazer de volta
a pessoa amada
pra mandar
ao raio que a parta
a saudade insistente faço poemas
sob demanda
para dizer
à Amanda
que ainda a amo
e que ela manda faço poemas
por preço
módico
para dizer ao moço
que não tenho
ódio
embora ele mereça
todo meu ócio faço poemas
não importa
o tema
só a coragem
de colocar
na ponta
dos dedos nossa dor
que nunca é pequena.

Um bolo

o pato
o gato
o sapato
dançam uma valsa
no meio
do mato o rato
o fato
o falo
o calo
o ralo o raio que eu parto em fatias tão pequenas
com todas as cenas
sem problemas
que você tão simpática guardou pra mim.

Novembro

não perdi meu pai
quando eu era pequeno
perdi novembro passado
vi ele morrendo
ele muito velho
eu quase também sendo
teria sido melhor
se ele fosse
há muitos e muitos
novembros? pelo menos seria mais velha
a falta
que ele vem fazendo.

Questão de fundo

a vida
nos dá
preguiça
e ficamos
no ora veja
inventamos um
movimento e fomos tomar cerveja.

Incorporados

amanhã é dia
dos mortos
mas todo dia é dia
dos vivos vivaldinos
espertos
malandros
assassinos amanhã é dia
dos corpos
de cima dizerem
aos de baixo estamos vivos
embora pareça
que não estamos
em nossos corpos.