31.12.15

Tuttlingen

Um pouco de cor
nesse inverno
um traço de rua 
tão moderno
um corte no céu
bem discreto
porque em todo
alemão
que se preza
existe um verão
interno.

15.12.15

Poemaço

de cigarros
de alface
de cartas
de cores
de lembranças
unidos venceremos
esse maço
de intolerâncias.

8.12.15

Vento que venta lá

se eu fosse o vento
ventava você
lá pra baixo da minha árvore
só para cair
fruto maduro
no colo
da sua tarde.

7.12.15

Uma taça

não posso tomar vinho
que bate uma saudade
não sei de quê
do tempo que eu era adivinho
da época em que eu via tevê
não sei se é saudade de mim
não sei se é de você.

Achuvismo

a chuva
achava
que a rua
era dela
descia
pelos cantos
cantava
nas janelas
a chuva
só chove
quando acha
quem chova
por ela.


4.12.15

Maiakoviscando

há quem ache
que o momento
não está pra poesia
idiotas da objetividade
pragmáticos de todo dia
não sabem
que poema e porrada
a gente enfia
na cara
da burguesia.

28.11.15

amor

amor
essa coisa tão vulgar
tão popular
tão fácil de achar
de perder
e não encontrar
mais
amor
essa coisa pra vender
pra alugar
e até
parcelar
em suaves prestações
normais
amor
te encontro em fotos
poemas
músicas
e cinemas
nos vários sistemas
naturais
amor
por favor
não vá embora
pois não veja
a hora
de te resgatar
respirar seu boca a boca
pra depois te afogar.

Tragédia

a dor
desce pelo peito
embrulha o estômago
não tem jeito
o medo
que reveste a alegria
deixa de ser
só receio
a perda
nossa inevitável sina
assassina sonhos
e desejos
o fim
não é o início
de nada
é só o fim
mesmo.

24.11.15

Hitchcock

fim de tarde
em niterói
pássaros cantam
revoam
prenunciam
a chuva
que vem sem demora
choveu e parou
agora
enquanto eles
[os pássaros]
continuam
sabendo
de tudo
eu
humano
não sei nem
minha hora.

20.11.15

Justiça poética

sonhei um mundo

diferente

girafa tinha pescoço curto
caranguejo andava pra frente
pipoca pulava pra dentro da panela
cabelo penteava o pente
justo era o pecador
ninguém passava corrente

sonhei um mudo
sonhei um surdo

e acordei achando que eu era gente.



O velho e o cão

o cão e o velho
o velho partiu
e o cão segue
abanando o rabo
porque o amor
é um apêndice
preso
a um corpo
que balança
na dança
tortuosa
que atende
por vida
o cão late
o carteiro bate
e não há poste
que exista
sem a mijada
certeira
do destino.

15.11.15

Ei mundo

olha mundo
presta atenção
não estou disposto
enjoado desse desgosto
de sangue e morte na boca
desse mau gosto pela dor e desespero
olha mundo
minha indústria
é bela e não bélica
é de fala mas não é fálica
não aceito essa sua torta fria
que serve em fatias a tragédia todo dia
olha mundo
olha pra dentro
olha pro fundo
olha pra trás
olha pra frente
olha enquanto é tempo
e olha para fora
antes que a gente vá embora.

Vendido

faço poemas
sob encomenda
para trazer de volta
a pessoa amada
pra mandar
ao raio que a parta
a saudade insistente
faço poemas
sob demanda
para dizer
à Amanda
que ainda a amo
e que ela manda
faço poemas
por preço
módico
para dizer ao moço
que não tenho
ódio
embora ele mereça
todo meu ócio
faço poemas
não importa
o tema
só a coragem
de colocar
na ponta
dos dedos
nossa dor
que nunca é pequena.

6.11.15

Um bolo



o pato
o gato
o sapato
dançam uma valsa
no meio
do mato
o rato
o fato
o falo
o calo
o ralo
o raio que eu parto
em fatias tão pequenas
com todas as cenas
sem problemas
que você
tão simpática
guardou pra mim.

Novembro

não perdi meu pai
quando eu era pequeno
perdi novembro passado
vi ele morrendo
ele muito velho
eu quase também sendo
teria sido melhor
se ele fosse
há muitos e muitos
novembros?
pelo menos seria mais velha
a falta
que ele vem fazendo.

3.11.15

1.11.15

Incorporados

amanhã é dia
dos mortos
mas todo dia é dia
dos vivos
vivaldinos
espertos
malandros
assassinos
amanhã é dia
dos corpos
de cima dizerem
aos de baixo
estamos vivos
embora pareça
que não estamos
em nossos corpos.


22.10.15

Perdemos

o primeiro perdão
é todo meu
e não nosso
eu me perdoo
por ter sido
o que eu pude
e não o que eu posso.


20.10.15

Dia do vadio

ouvi dizer
que hoje é dia do poeta

que bobagem!

todo dia é dia
de viagem
de molecagem
de deixar as palavras
treparem
na maior sacanagem

ouvi dizer
que hoje era dia do poeta

qual a vantagem?

poeta que é poeta não quer dia
quer tudo
quer todo
o tempo do universo

só para desperdiçar a existência
versando
na maior vadiagem.



15.10.15

Mestre

isso é um teste

quanto mais o aluno sofre
mais o professor se diverte?

se sua resposta
é sim

você passou
de professor
a mestre
na profunda
arte
de ser

uma peste.


13.10.15

Avesso

às vezes lembro
que faço poemas
indevidos
impróprios
sobre diversos
temas
às vezes lembro
às vezes esqueço
e faço mais poemas
do que mereço
um dia
vou pagar o preço
enviar todos
para o mesmo
endereço
trancá-los em casa
explodir tudo
implodir
a consciência
recomeçar do avesso.

25.9.15

Meia tigela

às vezes
dá uma vontade
de poesia
de marés
sempre cheias
de olhos
marejados
de corpos
de sereia
às vezes
dá um desejo
de ventania
de nuvens
indo embora
de raios
eletrocutados
injetados
na veia
às vezes
só às vezes
somos deuses
de tigela e meia.

23.9.15

Sobre o sol

saio no sol
de meio-dia
e não há meio
na rua
nem melodia
saio no sol
em demasia
e no meio
do sol

quem diria
poesia.

16.9.15

Gravidade

debruço
a alma
na janela
esperando
o medo
passar
a vida
escorre
pelo
mármore
parede
abaixo
infiltrando-se
um
pouquinho
no
vizinho
mas
não há
jeito
um dia
uma hora
um minuto
um segundo
ela vai horizontalmente se alinhar para finalmente descansar.


11.9.15

O estrangeiro

se você nasceu
como eu
branco e hétero
família e chupeta
fralda e mamadeira
escola e bicicleta
plano e saúde
vestibular e federal
estágio e emprego
carro e conforto
casa e filhos
presente e futuro
então você não sabe
o que perdeu
perdeu a chance
de ser
simplesmente
brasileiro.

26.8.15

Casais

a gente briga
por bobagem
por falta de problema
sério
sacanagem
a gente briga
por vadiagem
para variar a vida
movimentar
a viagem
a gente briga e cai
na intriga
da malandragem
viajamos
um pra cada lado
que o mundo é redondo
tchau
nos encontramos
na próxima
paragem.


13.8.15

Mesa

a poesia
é mesmo uma beleza
não se faz com palavras
mas se põe na mesa
na alvura de um prato
reflexo de um saleiro
lindura de tomate
espuma de cerveja
escorregadia
como azeite
enrugadinha
como alface
fugidia
como milho-verde
a poesia
é mesmo uma certeza
de que a vida
se faz de imagens
de pequena
imensa
grandeza.

8.8.15

Saber

ouço
seus sons
confissões
de um passado
que não passou
se você não sabe
quem é
muito menos sei eu
quem sou.


21.7.15

Buraco de minhoca

fiz uma dobra
no espaço/tempo
só pra encontrar 
você
buraco de minhoca
só pra te ver
viajei no universo
tudo ao contrário
que no fundo
é o inverso
do mistério
que é te encontrar

abri
seu sutiã pré-histórico
abusei
do seu feminismo pré-socrático
entrei
em seus segredos neandertais

te amo
te quero mais
pois o quântico de te amar
é dessas
realidades

universais.

16.7.15

"Sou um homem de palavras vadias. Não me levem a sério da meia-noite ao meio-dia."

Fraco e abusado

só de raiva
resolvi fazer um poema
sem choro
sem pena
todo desconjuntado
descabelado
com a alma pequena
porque esse negócio
de grandeza
é para os fortes
e quem é forte
não faz poema.


9.7.15

Lincha

não importa
o crime cometido
um linchamento
é sempre pior
que a alma
linchada
é o horror
coletivo
que arrasta
as esperanças
rumo ao nada
buraco negro
onde a humanidade
se perde
de mãos atadas
ao triste
destino
de ser
pelos próprios
desatinos
condenada.

8.7.15

O pinto pia

poeta
não é quem faz poesia
é quem sabe
que sabe tão pouco
que o certo é tão louco
que escorre pelo ralo
feito pia
vazia
e enquanto observa
o rodopio do nada
nada pelo buraco
rumo ao esgoto
inesgotável
da nossa utopia
o fato é que o gato pia
o pinto mia
e só duvida disso
aquele que
lá do alto
tudo
entedia.



7.7.15

Centro

o centro 
do Rio 
é um centro 
no cio
é assento
onde crio
um universo
de casas
passadas.




11.6.15

Erótico

não se sabe
o que ele viu
naquele corpo
insólito
pode ser
tesão
pode ser
paixão
pode ser
até amor
para explicar
esse desvio
ótico
pois se o amor é cego
o sexo é ilusão
semiótica.

10.6.15

Cruzes

aqui se vende
aqui se paga
aqui se prega
aqui se praga
aqui se vive
aqui se apaga
aqui se prende
aqui se solta
aqui se vaga
aqui se revolta
e a cruz que te carrega
tem o peso
das consciências
tortas.

23.5.15

Elefante

tem um tempo
que não escrevo
um poema
quebro uma perna
ou entro em cena
tem um tempo
que não peço
uma esmola
jogo uma bola
ou choro
até dar pena
tem um tempo
que não faço algo que ajude a colocar esse elefante que é a imaginação
numa realidade
tão
pequena.


18.5.15

Vadiagem

deixei
uma ideia
pendurada
num fio
feito tênis
moleque
feito pipa
voada
feito pardal
distraído
feito bandeira
enrolada
larguei
uma ideia
deixada
também
ela num vadia nada.

14.5.15

Pecado

a poesia
me persegue
com pensamentos
palavras
atos e omissões
a poesia
reza
para a vida
acabar
em verso
e o inverso chega frio esse ano.

28.4.15

Sete destinos

um era comum
um era menino
um era demais
um era difícil
um era assassino
um era cristão
um era tão só
todos eram nós
cada um com seu
desatino.


21.4.15

Paciência

tem a paz
tem a ciência
tenha a paciência
de esperar
seu momento
chegar
porque lá
existe um lugar
onde a paz e a ciência
vão te encontrar.

14.4.15

Soul branco

corpo frio
da alma quente
afroviking
fervente
chega de
repente
repete a sina
de ser branco
transparente
feito gelo
que derrete
a mente
com sua alma
diferente
discordante
dissonante
e persistente
porque só uma alma
negra
traduz a cor
da gente.

8.4.15

Pauta

música
aquela coisa
que toca
a vida
adiante
tira o peso
do elefante
afunda o voo
da ave
migrante
faz voar
o peixe
navegante
música
aquela coisa
que nos leva a acreditar que temos alma por um
instante.

4.4.15

Afável

venha querida
deitar-se em meus abraços
sou confortável
como um velho sofá
e você nem vai sentir
o tempo passar
venha querida
venha se confortar
a vida é dura e dolorida
e comigo você vai
se terminar.

31.3.15

Parodiaxal

faço poemas sim
e estou vivendo
tem gente que não poeta
e está morrendo
poe sia não faz mal a nim guém
põe zia num fax mao há ningém
pô e tia naum fais maus
nein bein
fasso puemas zim
e estou morrendo.


Peão

a felicidade
é uma obra
constante
tem fundações
tem andaimes
tem andares
e operários
itinerantes
só não tem data
pra ficar pronta
pois
se reconstrói
um passo adiante.


30.3.15

Joaninha

é um poema
em cima de uma folha
é uma cor que voa
um serzinho
à toa
com 180 dias
para ser
comida de passarinho
comedora de outros
bichinhos
pulgões
em desalinho
joaninha
seja aonde for
sempre voará cor
restará flor
em seu carinho.

28.3.15

Vivo

não importa onde eu esteja
você sempre estará comigo
meu passado
minha saudade
o meu e o seu
olhar amigo
não interessa onde eu vá
você sempre irá comigo
meu amuleto
minha esperança
o meu e o seu
caminhar unido
não faz diferença onde eu morra
você sempre viverá comigo
meu destino
minha sina
o meu e o seu
parecer vivo.


25.3.15

Impacto

eu
um pato
patológico ser
de fato
me encaro
estranhológico ver
que saco
todo vivo
vive
à beira
do infarto.


24.3.15

Sísmico

um plano
perfeito
reto
direito
estreito
ingênuo
defeito
um plano não resiste aos terremotos que guardamos no peito.